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COLUNA | ECONOMIA & MERCADO DE TRABALHO

A Câmara Acabou com o 6×1 — Mas Não para Todo Mundo

Foram 461 votos. A vitória é real, a pauta é justa e quem vive a escala 6×1 na pele merece comemorar. Mas o texto aprovado tem uma fresta que o debate esqueceu de nomear: os 38% da força de trabalho que vivem na informalidade não vão sentir diferença nenhuma.

Iris de Oliveira · 28 de mai. de 2026
A Câmara Acabou com o 6×1 — Mas Não para Todo Mundo

A Constituição de 1988 fixou em 44 horas a jornada máxima semanal do trabalhador brasileiro. Esse número sobreviveu a sete presidentes, a três reformas trabalhistas, a duas reformas previdenciárias e a trinta e oito anos de debate sindical, parlamentar e acadêmico sobre o esgotamento de quem trabalha seis dias para descansar um. Nenhum Congresso mexeu. Nenhum governo fez questão.

Na quarta-feira à noite, 461 deputados votaram sim e 19 votaram não. A espera acabou — pelo menos na Câmara. O texto que vai ao Senado reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, garante dois dias de folga por semana e não permite corte de salário. É a maior mudança no direito à jornada desde a própria Constituição. E já nasce com uma limitação que o placar expressivo não apaga: os 38% da força de trabalho que vivem na informalidade não vão sentir diferença nenhuma.

O que dou — e por que importa
A PEC 221/19 que saiu da Câmara não é a proposta original de Erika Hilton (PSol-RJ), que previa 36 horas semanais em escala 4×3. Nem a de Reginaldo Lopes (PT-MG), de igual formato. O texto que chega ao Senado é um substitutivo do deputado Leo Prates (Republicanos-BA): jornada máxima de 40 horas semanais, escala 5×2, com um dia de folga preferencialmente aos domingos — e transição gradual. Sessenta dias após a promulgação, a jornada cai para 42 horas. Quatorze meses depois, chega às 40.

A placar de 461 a 19 no segundo turno — quando se precisava de 308 para mudar a Constituição — diz algo sobre o estado do debate. A pauta tem apoio popular de mais de 60% dos brasileiros, segundo levantamentos do Datafolha, e virou bandeira eleitoral do governo Lula depois que a Secom convenceu o Planalto, em 2025, de que a resistência histórica do PT à pauta, fundada numa visão sindical de que escalas devem ser negociadas por categoria, era um erro político custoso. O presidente da Câmara, Hugo Motta, abraçou o texto em acordo negociado na segunda-feira antes da sessão — com cálculo claro: a PEC é bandeira eleitoral do Executivo e também moeda política para Motta na reeleição à presidência da Casa em fevereiro de 2027.

Mas o que empurrou essa pauta não foi só marqueteiro e cálculo parlamentar. Foi gente. Foram 14,8 milhões de trabalhadores — 33,2% dos empregos formais do país, segundo o próprio Ministério do Trabalho — que chegam em casa com exatamente um dia na semana para fazer tudo o mais: lavar roupa, cuidar dos filhos, consultar médico, descansar, existir fora do expediente. E 80% deles ganham menos de dois salários mínimos. A escala 6×1, no Brasil, não é uma irregularidade: é o contrato-padrão de quem tem pouco e aceita o que aparecer.

Sessenta por cento das mulheres negras com renda de até 1,5 salário mínimo estão em regime 6×1. Quando se debate a escala, esse é o rosto do debate — não o operador de telemarketing de ensino superior que também está nessa conta, mas em proporção muito menor.

A fresta que o placar não fechou

O texto aprovado tem uma exceção que passou sem muita atenção no noticiário. Trabalhadores com diploma de curso superior que ganham acima de 2,5 vezes o teto da Previdência Social — o equivalente hoje a R$ 21.188 mensais — ficam fora das regras da nova jornada. Também ficam os terceirizados em contratos de mão de obra com a administração pública, que terão um ano de prazo para adequação.

Essa exceção pode parecer razoável — e em parte é. Trabalhadores de alta renda têm mais poder de barganha para negociar condições com os empregadores. Mas ela também revela a lógica que atravessa toda a legislação trabalhista brasileira: protege quem já tem proteção. O médico residente que faz plantão de 24 horas segue sem cobertura da nova regra — e a reforma que o alcançaria precisaria de lei específica. O motorista de aplicativo que não para nunca, que não tem sábado nem domingo regulamentado, que não existe para o eSocial, que the Câmara chamou de trabalhador autônomo para não ter que regulamentá-lo — esse ficou do lado de fora da votação, como de costume.

38% da força de trabalho brasileira atua na informalidade. São quase 40 milhões de pessoas. A PEC aprovada não alcança nenhuma delas.

Isso não é argumento contra a PEC. É argumento contra a ideia de que a PEC resolve o problema do trabalho no Brasil. O país tem dois mercados de trabalho operando em paralelo: um com carteira, com teto de horas, com FGTS e INSS e, agora, com jornada de 40 horas; e outro sem nada disso. A reforma aprovada na quarta-feira melhorou as condições do primeiro. Não tocou no segundo. E o segundo é onde vive a fatia que mais trabalha e menos aparece nas estatísticas.

O que os estudos dizem — sem escolher um lado

A CNI calcula que, sem redução proporcional de salários, o custo efetivo da hora de trabalho aumentará 22% para as empresas. O encargo total sobre a folha poderia subir até R$ 267,2 bilhões anuais — com impacto estimado de 6,2% nos preços ao consumidor, incluindo 5,7% em alimentos básicos. Para o setor de aviação civil, o CEO da Latam Brasil declarou que incluir tripulantes na mudança de jornada tornará inviáveis voos internacionais de mais de oito horas. A Abesata, associação dos serviços de apoio aéreo, projeta alta de pelo menos 20% nos custos operacionais nos aeroportos.

Do outro lado da conta, Unicamp e Ipea estimam impactos menores, apontam possibilidade de geração de empregos e argumentam que o debate é distributivo — sobre para onde vai a produtividade — mais do que contábil. O Ministério do Trabalho lembra que 29,7 milhões de trabalhadores formais já fazem 40 horas semanais em 5×2, o que sugere que a economia absorve esse modelo sem colapsar. O governo avalia abrir linha de crédito, pelo programa Brasil Mais Produtivo, para micro e pequenas empresas financiarem automação e adaptação ao novo regime.

A divergência entre os estudos não é técnica — é política, como advertiu a economista Marilane Teixeira, da Unicamp. Quem financia a pesquisa escolhe as premissas, e premissas diferentes sobre produtividade, rotatividade e consumo resultam em projeções incompatíveis sobre o mesmo fato. O leitor honesto precisa saber que os dois lados apresentam números reais com bases metodológicas legítimas — e que a diferença entre eles mede o tamanho do conflito distributivo, não o erro de um dos lados.

Há também um dado que costuma aparecer pouco: o Brasil gera cerca de US$ 20 de PIB por hora trabalhada. Os Estados Unidos, US$ 97. A Alemanha, US$ 98. A comparação não favorece nenhum dos lados do debate — ela apenas coloca em perspectiva que o problema de produtividade do Brasil é estrutural e antecede qualquer mudança na jornada. A reforma da escala não cria nem destrói produtividade: o que a economia faz com as horas liberadas depende de investimento em educação, tecnologia e infraestrutura que nenhuma PEC, sozinha, entrega.

O que ainda falta — e quem vai disputar

O texto chega ao Senado com CNI, Fiesp e Abimaq já em ofensiva ativa. Representantes dessas entidades se encontraram na terça-feira com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, para discutir a tramitação. A oposição quer criar comissão especial — mecanismo que alarga o prazo de votação — ou incluir emenda permitindo que o salário seja calculado por hora trabalhada, modelo próximo do adotado nos Estados Unidos e que os trabalhadores de baixa renda identificam, com razão, como redução disfarçada de salário.

O Senado aprovou uma sessão temática para debater os impactos econômicos e sociais da PEC. O calendário importa: o recesso parlamentar começa em julho, e o governo prometeu votar antes. Se o prazo escorregar, a pressão do empresariado cresce, o debate se fragmenta em emendas e o texto que sai pode ser diferente do que entrou — ou pode não sair.

Há também uma questão que o debate público ainda não enfrentou com seriedade: o que acontece com os setores que operam 365 dias por ano, 24 horas por dia — saúde, segurança, energia, transporte? O texto aprovado abre espaço para convenções coletivas regulamentarem escalas alternativas dentro do limite de 40 horas semanais. Isso é razoável — mas transfere para a negociação entre sindicatos e empregadores uma complexidade que o Congresso não quis resolver diretamente. E em setores com sindicatos fracos, quem negocia em desvantagem já se sabe.

O Brasil não acabou com a escala 6×1. Acabou com a escala 6×1 de quem tem carteira assinada, ganha menos de R$ 21 mil e trabalha num setor com sindicato forte o suficiente para garantir que o texto seja cumprido. Para os outros, a escala segue como estava.

A Constituição de 1988 foi o teto. Trinta e oito anos depois, a Câmara votou que o teto era baixo demais. O que a votação de quarta-feira fez foi confirmar que 44 horas semanais nunca foram natureza — foram escolha. E que a escolha pode ser revisada, ainda que tarde, ainda que incompleta, ainda que com uma fila de lobistas esperando a vez no corredor do Senado.

O entregador de aplicativo que trabalha sete dias por semana sem nenhuma garantia não vai sentir diferença nenhuma. Não porque a PEC esqueceu dele. Porque o Brasil tem uma fila longa para chegar nos que não têm contrato, e a PEC da escala 6×1 foi honesta o suficiente para não fingir que chegava lá.

A reforma passou com 461 votos. É a maior vitória trabalhista desde a Constituição de 1988 em termos de direito à jornada. E vai chegar incompleta ao Senado, com uma fila de lobistas do lado de fora querendo reescrevê-la — e com 40 milhões de trabalhadores informais que nem sabem que ela existe, porque ela não existe para eles.


Fontes: Agência Brasil / Portal da Câmara dos Deputados — PEC 221/19 aprovada em dois turnos em 27/05/2026; 1º turno: 472 a 22; 2º turno: 461 a 19; texto substitutivo do dep. Leo Prates (Republicanos-BA); jornada 44h → 42h (60 dias) → 40h (14 meses); 5×2 com folga preferencialmente aos domingos; exceção para diploma superior + renda acima de R$ 21.188 (2,5 tetos do INSS); Senado Notícias — PEC aguarda votação no Senado, sessão temática aprovada (28/05/2026); Ministério do Trabalho e Emprego / Agência Gov — escala 6×1 atinge 14,8 milhões de trabalhadores (33,2% dos formais, e-Social); 29,7 milhões já fazem 40h em 5×2; impacto de 4,7% na massa de rendimentos com manutenção salarial; Brasil de Fato / Lagom Data — 46% dos trabalhadores 6×1 ganham entre R$ 1.412 e R$ 2.120; 22% ganham até um salário mínimo; 80,7% das mulheres negras na faixa até R$ 2.120; 60% das mulheres pretas com até 1,5 s.m. em regime 6×1; Dieese / CUT — 64% dos trabalhadores formais com jornada superior a 40h; Base dos Dados / CartaCapital (Lagom Data) — 65% dos vínculos formais 6×1 pagam até dois s.m.; NDMais / Gazeta do Povo / Agência Brasil — CNI: custo extra de 22% por hora; encargo de R$ 267,2 bi/ano; impacto de 6,2% nos preços ao consumidor; CEO da Latam Brasil: voos internacionais inviabilizados para tripulantes; Abesata: alta de 20% nos custos aeroportuários; Unicamp (Marilane Teixeira) e Ipea — impactos limitados, possível geração de empregos, divergência é distributiva; FGV Ibre — queda de PIB de 2,1% a 3,3% no cenário pessimista (40h); OCDE (2023) / Reportagem NDMais — PIB por hora: Brasil US$ 20, EUA US$ 97, Alemanha US$ 98; Gazeta do Povo — governo avalia linha de crédito pelo Brasil Mais Produtivo para micro e PMEs; CNI, Fiesp e Abimaq iniciaram ofensiva junto ao presidente do Senado Davi Alcolumbre (O Povo, 28/05/2026); IBGE — 38% dos trabalhadores brasileiros na informalidade (2024); 101,8 milhões de ocupados em 2024.