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COLUNA | CULTURA & SOCIEDADE

A Copa Vai Começar. O Brasil Não

A menos de duas semanas da abertura, 54% dos brasileiros dizem não ter interesse na Copa — recorde desde 1994. As bandeiras não subiram nas ruas, as camisas não esgotaram, ninguém pintou a calçada. Não é coincidência. É o fim silencioso de um pacto que durou setenta anos.

Iris de Oliveira · 27 de mai. de 2026
A Copa Vai Começar. O Brasil Não

Sai da padaria do bairro de manhã, atravessa três quadras até a banca de revistas, vira na avenida do comércio e olha em volta. Estamos a duas semanas da Copa do Mundo — e você  não percebeu.

Nenhuma bandeira amarrada no portão. Nenhuma rua pintada de verde e amarelo por adolescentes nas férias de junho. Nenhum bar com a tabela impressa colada no espelho atrás do balcão. A vitrine da loja de esportes ainda tem, no manequim do meio, um agasalho de inverno — e não a camisa nova da seleção, que custa R$ 749,99 e ninguém comprou. Em algum ponto da última década, junho deixou de ser o mês da Copa. Virou só o mês em que faz frio.

Isso não é uma impressão de quem mora no interior. É um dado nacional. Em pesquisa Datafolha divulgada em abril, 54% dos brasileiros disseram não ter vontade de assistir aos jogos da Copa do Mundo de 2026. É o maior índice de desinteresse da série histórica do instituto, que começou em 1994. Supera o recorde anterior, registrado às vésperas da Copa da Rússia, e ultrapassa o desinteresse com que o Brasil entrou no Mundial do Catar. Trinta e um por cento dos entrevistados foram além: não pretendem assistir a nenhum jogo. Nem o do Brasil.

A pergunta não é por que o clima de Copa sumiu. É o que o clima de Copa estava sustentando — e por que essa sustentação se desmontou.

O que ainda funciona

Antes de qualquer diagnóstico, é preciso reconhecer o que segue de pé. Entre os mais jovens, o engajamento resiste: 24% dos brasileiros de 16 a 24 anos disseram ter grande interesse na Copa, contra apenas 17% da média geral. O comércio especializado projeta crescimento — o Instituto Fecomércio-DF aponta que 85% dos lojistas estão mais confiantes nesta edição do que estavam para o Catar, com expectativa de alta de até 9,7% nas vendas de televisores. O Grupo SBF, dono da Centauro, projeta R$ 390 milhões adicionais de receita em 2026 por causa do Mundial. As camisas vão vender. Os bares vão lotar nos jogos do Brasil. Alguém ainda vai pintar uma rua em algum bairro de alguma cidade.

Carlo Ancelotti, primeiro estrangeiro a comandar a seleção brasileira em mais de seis décadas, pediu publicamente confiança ao grupo convocado. Disse que pode não ser o time perfeito, mas é focado, humilde e altruísta. É uma frase desconcertante vinda do treinador do Brasil — porque ela soaria normal vinda do treinador da Suíça.

O que está acontecendo, então, não é o desaparecimento do futebol da vida brasileira. É a erosão de uma coisa diferente: o pacto coletivo que transformava a Copa, a cada quatro anos, em um evento de país inteiro — e não em mais um produto disputando atenção numa economia da distração.

O clima de Copa não desapareceu por acaso. Ele dependia de condições que o Brasil deixou de oferecer — e que a Copa, transformada em produto, deixou de devolver.

O contrato que se desfez

Por sete décadas, a Copa do Mundo funcionou no Brasil como um contrato afetivo silencioso entre três partes. De um lado, uma seleção que carregava a identidade do país — os jogadores tinham rosto conhecido, jogavam no campeonato brasileiro até serem comprados pela Europa, voltavam para a Copa como o vizinho que deu certo. Do outro lado, um povo que se reconhecia naquilo: a Copa parava o expediente, esvaziava a rua nos dias de jogo, vestia o país com a mesma camisa. No meio, uma FIFA que entregava um espetáculo de 32 seleções, em geral concentrado num único país, com horário decente para o Brasil acompanhar.

Esse contrato fez dois Brasis se encontrarem na mesma calçada. Em 1994, a fila do banco e o consultório do dentista paravam para ver Romário. Em 2002, a Copa era ao amanhecer porque era no Japão e na Coreia — e mesmo assim a padaria abria mais cedo. Em 2014, o país inteiro foi a sede, e a rua de Cacoal teve seu nome trocado por bandeirinhas penduradas em fio de varal.

Em 2026, nenhuma das três partes do contrato está mais inteira.

O lado da seleção: o vizinho que ninguém conhece mais

A seleção que vai estrear contra o Marrocos em 13 de junho tem nomes que boa parte do brasileiro não consegue listar de memória. Não é falta de talento — é falta de convivência. Vinicius Júnior, Rodrygo, Raphinha e praticamente todos os titulares foram para a Europa antes dos 22 anos. Jogam no Real Madrid, no Barcelona, no Arsenal, em horários que coincidem com o trabalho do brasileiro comum. O torcedor que acompanhou o Romário no Vasco e o Ronaldinho no Grêmio na adolescência não tem o mesmo vínculo com um atacante que ele só viu em corte de TikTok.

Some-se a isso o desempenho. Sob Ancelotti, a seleção tem cinco vitórias, dois empates e três derrotas em dez jogos oficiais. Treze gols feitos, oito sofridos. Pesquisa Quaest mostra que apenas 28% dos brasileiros acreditam no hexa. Sessenta e um por cento não acreditam. E o detalhe que talvez seja o mais revelador de todos: o elenco convocado para 2026 vale, em mercado, menos do que o elenco eliminado nas quartas pela Croácia em 2022. A seleção que vai disputar a Copa é uma seleção que o próprio mercado internacional desvalorizou.

Em 1994, o brasileiro ia para a rua porque a seleção era dele. Em 2026, a seleção é uma marca administrada por um italiano de 66 anos que ganha 10 milhões de euros por ano para reconstruí-la.

Não é crítica a Ancelotti — é constatação. O técnico foi contratado exatamente porque a seleção não estava conseguindo se reconstruir sozinha. A contratação é racional. Mas ela diz alguma coisa sobre o que aconteceu com o vínculo entre o time e o país que ele supostamente representa.

O lado do produto: a Copa que inchou até deixar de caber

Esta é a primeira Copa em três países simultâneos. São 48 seleções em vez de 32 — uma expansão de 50% no número de times. Cento e quatro jogos em vez de 64. Trinta e nove dias de competição, dez a mais do que no Catar. Cabo Verde, Curaçao, Jordânia e Uzbequistão estreiam no Mundial. O torcedor brasileiro foi convidado a se importar com Estados Unidos, Canadá e México como sedes, com uma fase a mais de mata-mata, com horários espalhados por três fusos.

A FIFA chama isso de a maior Copa de todos os tempos. Em termos de receita, provavelmente é. Em termos de densidade emocional, é outra coisa. Quando um torneio dobra de tamanho, ele não dobra de importância — ele divide a importância pelo dobro. A fase de grupos perde tensão porque os dois primeiros se classificam direto e os oito melhores terceiros também. Vinte e quatro das 48 seleções passam pela porta da frente. A eliminação vira coisa rara — e a eliminação é a parte da Copa que prende quem não gosta de futebol.

É a lógica do streaming aplicada ao Mundial: mais conteúdo, mais episódios, mais países, mais jogadores para o algoritmo recomendar. O que se perde no caminho é exatamente aquilo que fazia a Copa diferente de um campeonato qualquer — a concentração de um país inteiro numa única narrativa, com início, meio e fim. Em 2026, a narrativa vai começar em 11 de junho no Estádio Azteca, no México. Termina 39 dias depois, em Nova Jersey. No meio, o brasileiro precisa lembrar qual é o jogo do Brasil hoje, em que horário, contra quem e em qual das três cidades dos Estados Unidos.

O lado do país: a atenção que já foi vendida em outro lugar

Há um Brasil mais fundo, que talvez explique mais do que qualquer convocação ou expansão da FIFA. O brasileiro de 2026 não é o mesmo que vibrou em 2002. Passa, em média, 9 horas e 13 minutos por dia conectado à internet — o segundo maior tempo do mundo. Sua atenção foi loteada por TikTok, Shopee, bets, série, podcast e grupos de WhatsApp da família, em ordem alfabética e simultânea. A Copa, que sempre foi um evento de concentração coletiva, chega agora a uma população treinada para dispersão contínua.

Há também a economia. A camisa oficial da seleção brasileira custa R$ 749,99 e consome 17,5% da renda média mensal per capita brasileira — o maior peso entre todas as oito seleções que já foram campeãs do mundo, segundo levantamento da BBC News Brasil. Em 1998, a primeira camisa da Nike pela CBF custava R$ 84. Corrigida pela inflação, daria hoje R$ 438. Os R$ 311 de diferença não vieram do custo do tecido. Vieram da transformação da camisa em ativo de moda — e da transformação do torcedor em consumidor que precisa ser ordenhado a cada quatro anos.

Há o desgaste político. O eleitor de Lula e o eleitor de Bolsonaro, em empate técnico de desinteresse na pesquisa Datafolha — 51% contra 56% —, não conseguem se reunir em torno da seleção porque já não conseguem se reunir em torno de quase nada. A bandeira do Brasil virou símbolo partidário em 2018 e nunca mais voltou a ser inteiramente do país. Pendurar a verde e amarela no portão deixou de ser gesto neutro. Para uma parte do Brasil, virou declaração; para a outra, virou suspeita. O resultado é que ninguém pendura.

E há a Copa nos Estados Unidos, no governo de Donald Trump, com o próprio Trump posando ao lado da taça em fotos oficiais da FIFA. Para uma parte do brasileiro, isso basta. Um aposentado paulistano entrevistado pelo Datafolha foi direto: a sede americana é fator de repulsa. Não é maioria, mas é mais um peso na balança que já estava pendendo.

O clima de Copa exigia que três coisas estivessem inteiras ao mesmo tempo: uma seleção reconhecível, um torneio que coubesse na cabeça do torcedor e um país disposto a parar. Nenhuma das três está hoje.

O que pode ainda mudar — e o que não vai

Tudo isto é fotografia de 26 de maio. Faltam 16 dias para a estreia do Brasil. Se Vinicius Júnior fizer dois gols contra o Marrocos no dia 13, se o Brasil ganhar o primeiro jogo de virada, se aparecer uma narrativa — um gol nos acréscimos, uma defesa milagrosa, um jovem que ninguém conhecia — o clima muda. O brasileiro é especialista em entrar atrasado em festa coletiva. A Copa de 2002 começou com o Brasil duvidado e terminou penta. A Copa de 2014 começou em euforia e terminou em sete a um.

Mas há diferença entre clima que volta no meio do torneio e clima que começa antes dele. Em 2002, em 2006, em 2010, em 2014 e em 2018, as ruas já estavam pintadas em maio. Em 2022, ainda havia camisas no manequim. Em 2026, há a tabela impressa no caderno de esportes do jornal, uma campanha de cartão de crédito com influenciador, e o silêncio.

O que provavelmente não vai voltar é o pacto coletivo automático — aquele em que a Copa começava e o Brasil parava sem precisar combinar. Esse pacto pressupunha uma atenção comum, uma seleção reconhecível, uma FIFA que respeitasse a economia simbólica do evento e um país disposto a se encontrar. Esses pressupostos foram corroídos um a um, em velocidades diferentes, por causas diferentes — mas se desmontaram no mesmo período.

O que pode existir daqui para frente é uma Copa que parte do Brasil acompanha por gosto, parte ignora por cansaço, parte assiste por reflexo e parte critica por princípio. O Mundial vira mais um produto cultural — como série, como festival, como eleição. Tem público dedicado, tem público casual, tem boicote ativo e tem indiferença. O que ele deixa de ter é a presença obrigatória de um país inteiro na mesma sala, na mesma hora, com a mesma roupa.

Pela primeira vez desde 1994, a maioria do Brasil não quer ver a Copa. E quem decidiu não ver não está esperando ser convencida pela vitória.

Volto à padaria. A vitrine não vai colocar a camisa nova porque ninguém vai comprar a R$ 749,99 — e a loja já sabe disso. A bandeira não vai subir no portão porque metade da rua acha que é declaração política e a outra metade não quer cruzar com a primeira metade no churrasco do domingo. O bar não vai imprimir a tabela porque os clientes já têm o Google. E o brasileiro que ainda vai assistir vai assistir sozinho no celular, deitado, no intervalo de outra coisa.

A Copa não perdeu o clima. O Brasil perdeu o motivo de criá-lo junto. Vai começar mesmo assim — porque a FIFA tem cronograma, a Globo tem contrato e Ancelotti tem 10 milhões de euros por ano. Só que a rua, dessa vez, não foi convidada para a festa. Não porque alguém esqueceu de convidá-la. Porque ela parou de atender.


Fontes: Datafolha — 54% dos brasileiros não pretendem assistir à Copa do Mundo de 2026, maior índice da série histórica iniciada em 1994; 31% não pretendem assistir a nenhum jogo; 62% das mulheres e 46% dos homens; 24% dos jovens de 16-24 anos com grande interesse (abr/2026, 2.004 entrevistados, margem 2 p.p.); Quaest — 28% acreditam no hexa, 61% não acreditam (out/2025); FIFA — Copa do Mundo de 2026 entre 11/jun e 19/jul, 48 seleções, 104 jogos, 16 cidades-sede em EUA, México e Canadá; Estádio Azteca abertura, MetLife Stadium final; CBF — Carlo Ancelotti convocou 26 jogadores em 18/mai no Museu do Amanhã; estreia do Brasil contra Marrocos em 13/jun em Nova Jersey; CNN Brasil — Era Ancelotti: 10 jogos, 5 vitórias, 2 empates, 3 derrotas, 13 gols feitos e 8 sofridos; salário de 10 milhões de euros ao ano, bônus de 5 milhões pelo hexa; Lance! Negócios — elenco de 2026 vale menos no mercado que o de 2022 (€ 1,137 bilhão); BBC News Brasil / Diário do Pará — camisa oficial R$ 749,99, equivalente a 17,5% da renda média mensal per capita brasileira, maior peso entre as oito campeãs mundiais; salto de R$ 84 (1998) para R$ 749,99 (2026), acima da inflação acumulada; Infomoney / IEMI — mercado de artigos esportivos R$ 61,4 bi em 2025, sendo R$ 20,5 bi de futebol; Correio Braziliense / Fecomércio-DF — 85% dos lojistas mais confiantes; alta de até 9,7% nas vendas de TVs; Grupo SBF projeta R$ 390 mi adicionais de receita em 2026; We Are Social 2025 — brasileiro passa em média 9h13/dia conectado, 2º maior do mundo; Diário do Centro do Mundo / Exame — eleitor de Lula (51%) e de Bolsonaro (56%) em empate técnico de desinteresse pela Copa.