Dividir para Não Governar
A polarização entre Lula e Bolsonaro não é um acidente da história. É o produto mais bem-acabado de dois projetos políticos que precisam um do outro para sobreviver.
Iris de Oliveira · 15 de mar. de 2026Tem uma frase que ouço nos dois lados com uma frequência que já me cansa. Da direita: 'ou você é contra o Lula ou você é a favor.' Da esquerda: 'quem não está com a democracia está com o golpe.' Em ambos os casos, a lógica é a mesma — você escolhe um dos dois times, senta na arquibancada certa e xinga o outro lado até a eleição acabar. O que ninguém menciona é que essa divisão não surgiu do nada. Ela foi construída. Tijolo por tijolo, post por post, palanque por palanque. E quem mais lucrou com ela não foi o Brasil.
Foi Lula. E foi Bolsonaro. Ao mesmo tempo, pelo mesmo motivo.
O que é, exatamente, dividir para conquistar
A expressão vem do latim — divide et impera — e foi usada por séculos por impérios que precisavam dominar territórios grandes demais para controlar de frente. A estratégia é simples: se você não pode vencer todo mundo junto, faça com que eles briguem entre si. Enquanto brigam, não te olham. Enquanto não te olham, você governa sem resistência.
No Brasil de 2026, a versão contemporânea da estratégia funciona assim: você cria um inimigo tão aterrorizante que seu próprio eleitor para de cobrar resultados e começa a votar por medo. Não por projeto. Não por esperança. Por medo do outro lado.
Lula sabe fazer isso. Bolsonaro também. A diferença entre eles é o vocabulário — não a técnica.
O negócio que ninguém chama de negócio
Vou dizer algo que os marqueteiros dos dois campos não gostam de ouvir: Lula e Bolsonaro precisam um do outro. Precisam de verdade, estruturalmente, como dois sócios que nunca assinariam contrato, mas cujo lucro depende da existência do outro.
Sem Bolsonaro, Lula perde o argumento mais poderoso que tem — o do perigo iminente, o da democracia em risco, o do fascismo que volta se você não votar no PT. Sem Lula, Bolsonaro perde o comunismo que está sempre chegando, o globalismo, a destruição dos valores da família. Tire um do tablado e o outro perde metade do discurso. Não é coincidência. É dependência recíproca.
Os dados confirmam o que a intuição já sabia. Pesquisa Datafolha de dezembro de 2025 mostrou que 74% dos brasileiros se identificam com um dos dois polos — petista ou bolsonarista. O analista Bruno Rizzi, da Fatto Inteligência Política, chamou isso de 'calcificação da polarização' — além de polarizar, essa divisão fica fixa, estagnada. E o dado mais revelador de todos: 24% do eleitorado, segundo levantamento Genial/Quaest, prefere explicitamente um candidato 'nem Lula nem Bolsonaro' em termos de intenção de voto declarada. São 40 milhões de brasileiros que, na hora de escolher, rejeitam os dois — e que os dois campos, deliberadamente, ignoram.
Quarenta milhões de brasileiros rejeitam os dois lados. Os dois lados ignoram os quarenta milhões. Pergunte-se por quê.
Como funciona na prática — e por que é tão eficiente
A mecânica da divisão tem três peças que precisam funcionar juntas.
A primeira é o inimigo necessário. Todo discurso polarizante precisa de uma figura que encarne o mal — não uma política ruim, não uma gestão incompetente, mas uma ameaça existencial. Para o lulismo, Bolsonaro é o fascismo. Para o bolsonarismo, Lula é o comunismo. Nenhuma das duas caracterizações é precisa. Mas precisão nunca foi o objetivo — impacto emocional sim.
A segunda peça é o eleitor de trincheira. Uma vez que o outro lado virou ameaça existencial, seu próprio eleitor para de avaliar e começa a defender. Qualquer crítica ao seu líder vira 'jogar para o inimigo'. Qualquer dado inconveniente vira 'narrativa da oposição'. O eleitor de trincheira é o sonho de qualquer político porque ele não precisa ser convencido — só precisa ser assustado.
A terceira peça é o silêncio sobre o que importa. Enquanto a guerra cultural consome o debate público — aborto, armas, ideologia de gênero, comunismo, fascismo — ninguém está perguntando sobre o rombo do INSS, sobre os supersalários do Judiciário, sobre o BRB que comprou R$ 12 bilhões em carteiras fictícias do Banco Master. A polarização é, entre outras coisas, um mecanismo de distração de classe mundial.
O paradoxo que ninguém quer encarar
Aqui está o dado que me incomoda mais do que qualquer outro nessa história. A pesquisa More in Common em parceria com a Quaest mediu algo diferente da intenção de voto — mediu identificação com o clima político em si. E encontrou o que chamou de 'maioria invisível': 88 milhões de brasileiros que não se sentem representados pelo debate polarizado, que evitam o confronto político e que se afastam porque o ambiente é hostil demais. Não são necessariamente os mesmos 40 milhões que declaram votar diferente — alguns desses 88 milhões ainda votarão em Lula ou Bolsonaro por falta de alternativa. Mas não se reconhecem na guerra. São 88 milhões de pessoas — mais da metade do eleitorado — que os dois campos tratam como figurantes.
Esses 88 milhões não são indiferentes à política. São pessoas que querem saúde funcionando, escola para os filhos, segurança nas ruas, emprego de verdade. Não querem saber se o inimigo é vermelho ou verde-oliva. Querem resultado. E os dois lados, sistematicamente, preferem não falar com elas — porque falar com elas exigiria apresentar propostas concretas, e proposta concreta tem que ser cumprida. Discurso de guerra não.
Para terminar — com uma pergunta que ninguém faz
Na próxima vez que você sentir raiva do outro lado — do petismo ou do bolsonarismo, tanto faz —, faça uma pausa de trinta segundos e pergunte: essa raiva me ajudou a pagar menos imposto? Melhorou o hospital perto de casa? Resolveu algum problema concreto da minha vida?
A resposta, quase certamente, é não. E isso não é culpa sua.
É o produto mais bem-acabado de um sistema político que descobriu, há muito tempo, que um eleitor com raiva não cobra. Um eleitor com raiva defende. E político que não presta conta não precisa melhorar.
Dividir para conquistar é uma estratégia tão velha quanto o poder. O que mudou, no Brasil de 2026, é que ela funciona melhor do que nunca — e que os dois lados que fingem se odiar são os únicos que estão ganhando.
Fontes: Pesquisa Datafolha (dez/2025, 2.002 entrevistas); Pesquisa More in Common/Quaest (2025); Pesquisa Genial/Quaest (2025); Fatto Inteligência Política — análise Bruno Rizzi (BM&C News, mar/2026); Gazeta do Povo; CartaCapital; Brasil 247.